A Fuga

    Era dia, na verdade comecinho do dia, o sol estava nascendo lá fora disparando os primeiros raios luz sobre uma terra totalmente morta, ou melhor, sobre uma terra zumbi. Nada mais era tão bonito quanto antes, estava tudo meio cinza e marrom, sem luz, sem vida... Decidi finalmente sair do meu esconderijo no banheiro dos meus pais que nunca voltaram de um passeio romântico, talvez eu ainda pudesse encontrá-los, vivos ou zumbificados... não sei qual forma me deixaria mais atordoada. Armada com meu porrete, uma garrafinha de água da bica e a única barra de cereal que sobrou eu resolvi sair e encontrar mais pessoas, encontrar uma ajuda ou qualquer coisa que me ajudasse a sobreviver, qualquer coisa mesmo! 
      As ruas estavam vazias, só faltava àquela bola de feno passar rodando para completar a paisagem de deserto, o sol estava mais alto, talvez fossem 7 horas agora, mas isso já não me importava mais, o tempo agora não era mais um motivo de preocupação. Eu podia ouvir alguns barulhos distantes, gemidos, ossos se arrastando... era incrível como minha audição havia melhorado! 
      Depois de 15 minutos de caminhada olhando dentro de cada carro e checando se estavam funcionando encontrei um fusca preto que em outros tempos eu acharia o automóvel mais lindo do mundo, mas agora só consegui pensar que talvez ele pudesse me ajudar a sair daquele lugar, já que estava estacionado no posto de gasolina e estava com o tanque cheio. “Que sorte!” pensei feliz e aproveitei para assaltar a loja de conveniência e pegar um pouco mais de gasolina em uma garrafa de refrigerante.
    Pronto, agora sim eu poderia fugir ‘em paz’. Os donos do fusca provavelmente saíram correndo, pois a chave ainda estava no carro. Entrei, olhei ao redor e pude ver um zumbi caminhando sem rumo as uns 30 m de distância, não fiquei para ver melhor. Em alguns minutos eu já estava longe do posto, da minha casa e logo logo estaria longe daquela cidade.

Olhos Famintos

Mente e estômago vazios. Nada mais me abala. Estou no automático.
As vezes paro pra exercitar um pouco o meu cérebro tão desejado pelos malditos... Só pra não esquecer o que sou nem o que eu estou fazendo.
O que estou fazendo??... Desta vez não acho respostas. O Sol começa a repousar no horizonte vermelho e mesmo com o meu 'toque de recolher' se iniciando eu havia parado de andar. Simplesmente parado.
De pé eu pensava. Pensava em muitas coisas e acabava pensando em nada. Tanta coisa já havia acontecido... Tantos entes queridos mortos ou desaparecidos... Tudo me indicava um só caminho: O desespero e suicídio.
A cada instante eu pensava se valia mesmo a pena lutar todo maldito dia pra sobreviver pra que um dia eu caia na boca de um dos miseráveis infernais... Preciso escapar da loucura. Mas sempre que entro nesse estado algo me puxa de volta pra realidade.
Eu ainda estava parado. Mal percebo que a lua já reluz um azul sinistro e que já é madrugada. Não sei o que aconteceu comigo. Fiquei fora do meu corpo por algumas horas e nada me atacou. Talvez pelo silencio que meu ócio patrocinou... Não tenho certeza. Preciso me esconder, como sempre. Estou numa cidade que me lembra o Texas. Eu amava assistir os grandes clássicos americanos. Preciso reconhecer que os malditos fizeram bons filmes.
Achei uma casa bem discreta e me lancei ao interior dela.
Mal ponho os pés dentro e ouço barulhos de carne sendo rasgada e ossos quebrados. O sangue corria frio e rápido por minhas veias. Eles haviam achado alguém. Um pobre infeliz. Espero que a morte tenha sido rápida para ele.
Enquanto eu saia vagarosamente da casa infernal eu não tirava meus olhos das sombras vorazes e famintas. Eu tremia de fraqueza. Se algo acontecer de errado eu não tenho forças pra resistir.
Justo quando me ponho na luz do luar meu rifle esbarra na porta da frente da casa. Foi tudo tão rápido. Mal meus tímpanos haviam parado de receber o ruído produzido por mim eu já estava correndo. Meu rifle estava carregado. Eu tinha que ser preciso e econômico. A cada 20 metros corridos eu me virava, parava e atirava na cabeça de um. Foi assim por intermináveis 600 metros. O rifle ainda fumegava quando um cão começa a latir e correr em minha direção. Mesmo de noite os olhos dele exalavam um vermelho sangue e eu era capaz de ver as tripas dele se arrastarem na terra batida. Não era um cão normal, claro. Esperei ele se aproximar mais e decepei a cabeça dele com meu machado. O barulho dos tiros já haviam me deixado louco. Assim que me viro o cão late outra vez. Não sei como. Depois de eu ter esmagado a cabeça dele com uma pedra eu entrei em leve desespero. "Os malditos estão ficando mais resistentes ou será só com os cães que isso acontece??"
Me limpei e me virei. Na cidade havia mais nada que fosse de meu interesse. Quando miro meus olhos para a mata ao redor da cidade eu não acreditei... Eu não quis acreditar... "Impossível"... É O MEU FIM!!!

Surpresa na Trincheira.

Meu corpo suplicava por descanso. Mas eu devia aproveitar cada segundo de luz do dia para eu me deslocar em busca dos outros marinheiros russos.

Árvores ainda me cercavam. Era um bom sinal. Sinal de que eu certamente estava no lugar onde eu achava estar.
A luz do maldito sol estava fluindo por de entre os troncos rumo ao horizonte, me deixando sozinho e cada vez mais vulnerável.
Tratei de procurar um abrigo. Meus olhos só conseguiam enxergar troncos retorcidos e folhas mortas cobrindo o sinistro chão do que poderia ser meu último leito.
Começo a perceber que eu poderia estar perdido e sem lugar para passar a noite.
Me desespero.
Começo a pensar em tudo o que eu aprendi e tudo o que eu poderia fazer com o que estava ao meu alcance.
Resolvo enfim cavar uma pequena trincheira... Funda e larga o suficiente para mim e meus equipamentos já escassos. Na noite passada eu havia encontrado, por sorte, algumas pistolas dentro de uma ruína de um presídio. Estavam com os cartuchos cheios, mas eu não sabia se elas ainda funcionavam e nem quis testar, correndo o risco de alertar minha presença. Não paguei para ver.
Me ponho no buraco recém feito e me cubro de folhas e galhos... Não forçando o contraste com o solo a minha volta.
Descansei. Só o fato de poder parar e esticar as pernas já era a glória do meu dia, recheado de monotonia e exaustão.
Começo a rezar. Rezo para que eu não tenha que colocar minha vida nas mãos de 3 pistolas velhas. Eu paro. Respiro fundo, mas devagar. Prendo a respiração e espero. Espero os ruídos infernais e gemidos dolorosos pararem...
Mas não param.
Antes fiz uma breve eleição para nomear a pistola menos velha. Deixei ela pronta. As outras duas eu havia deixado perto de minhas mãos, semi enterradas.
Os ruídos aumentam. Ficam cada vez mais intensos e envolventes. Já não consigo distinguir a origem de cada qual. O sangue circula frio, quase parando. Como se meu corpo já tivesse desistido de presenciar a possível e quase certa morte lenta e patrocinada por aquelas bestas infernais.
Um deles chega a pisar em mim. Fiquei nervoso como nunca. Mas confiei na falta de tato deles. Esse era pesado. Geralmente eles são magros, com pouca carne e membros em decomposição. Eu não iria arriscar minha pele para ver a cara deles. Fiquei quieto até que eles se foram.
Minha noção de tempo era totalmente distorcida e eu era muito mais paciente do que antes do fim. Eu aprendi a esperar, e esperei. Creio que depois de cerca de duas horas após eles sumirem, eu esperei. Fiquei imóvel como uma pedra... Uma pedra que lutava a cada dia para se esconder e sobreviver.
Enfim resolvo sair e noto, com um súbito frio na espinha, que todas as pegadas eram de coturnos russos... Com os símbolos da marinha. Eram eles... Os malditos foram infectados. Toda minha jornada até eles foi em vão.
Não perdi a cabeça. Eu não poderia fazer isso... Não... Não posso me entregar. Não depois de tudo que passei. Não agora. Não hoje.
Apago meus rastros da noite passada e ao amanhecer continuo minha dura e dolorosa caminhada em busca de algo que não sei... Simplesmente não sei... Mas continuo minha caminhada.

Ignição Maldita

Como chegamos até aqui? Não sei. 
Finalmente recebi notícias do meu Almirante... Não as que eu esperava. A base russa foi bombardeada por aviões tão rápidos quando o som... Restaram poucos. Um deles me informou o ocorrido. Estamos cada vez mais perdidos no meio de um formigueiro na chuva. Mas mesmo com essa notificação insatisfatória, junto a ela veio também um sopro de alegria à minha alma que suplica para não sair desse corpo moribundo: Alguns marinheiros russos estavam a poucos quilômetros de onde eu achava estar. 
Ao ler isso no meu comunicador entrei em histeria. Era dia. Poucos 'deles' andam de dia. Procurei um mapa na casa onde eu havia dormido na noite passada. Vi também uma lista telefônica que me indicava o local onde eu estava. Pronto...Eu estava pronto para me lançar ao suicídio em busca de outros marinheiros. 
Lancei-me para fora da casa. Rifle na mão e machado pendurado nas costas. Nem corria, nem andava. Apesar de toda a euforia eu precisava ser cauteloso. Eu ainda poderia ser útil para a Grande Mãe Rússia.
Olhava para todos os lados. Estava tudo muito estranho...Não havia zumbis nas ruas. Tudo muito quieto... Silencio... Nada além dos leves ruídos da minha caminhada. Não sei o que me deu... Mas no meio do caminho parei. Fiquei olhando o meu caminho a frente. Era a divisão da zona urbana com a rural. À minha frente havia uma estrada com vários carros parados e com suas portas abertas. Eu olhava e tentava entender o motivo da minha parada. Dei uma golada no meu velho cantil, como se eu estivesse a me preparar para algo, e continuei a caminhar.
Percorri em torno de 2 quilômetros e vi uma horda de seres malditos. Não poderiam ser humanos... Afinal humanos não correm juntos assim desde os tempos das grandes maratonas. A quinhentos metros atrás de mim ainda haviam veículos abandonados. Corri. Corri segurando meu rifle já destravado [contrariando o código militar russo] e segurando meu machado para que ele não caísse de minhas costas. A sorte me acompanhava. Não sei por qual motivo... Mas ela estava comigo
Avistei um caminhão. Minha vista cansada não conseguia ver se havia carga ou ele estava destrelado. Ao me aproximar vi que estava somente o caminhão sem carga. A sorte realmente não estava brincando comigo. 
Lancei meu machado e meus esquipamentos dentro do veículo. Travei todas as portas. Eu tentava dar a partida... Nada. E 'eles' chegando cada vez mais perto, como um bando de cães do inferno. Desisti da ignição e quebrei o pára-brisas e descarreguei meu rifle nas 3 primeiras fileiras de zumbis. Restavam em torno de uns 7 ou 8. Abri a maldita porta e peguei meu machado como um gladiador pega sua espada e me lancei à batalha. A derrota nunca foi uma opção. 
Achei forças onde eu jamais imaginei que existissem e com as duas mãos no machado eu decepava um por um. Hora ou outra eu tinha que dar com os pés em algum zumbi que vinha pela minha retaguarda para me morder. Lutei. 
O ódio e a raiva haviam tomado conta de meu ser. 
Matei todos. Foi muito rápido. Descontei toda a raiva que havia em mim se instalado. Paro de pisar em uma cabeça quando percebo que estou pisando no asfalto da estrada revestido de migalhas de cérebro e ossos. 
Ponho minha mão dentro do caminhão e pego meu rifle descarregado e continuo minha caminhada.

Medo

    O sol estava se pondo lá fora, eu ainda evitava sair de casa, mas a comida estava acabando... uma hora eu precisaria enfrentar meus medos. Era um final de tarde quente e com alguns insetos começando a incomodar, seria tudo normal se não fosse por um simples detalhe: Havia zumbis andando (se é que podemos chamar aquilo de andar) e gemendo pra cima e pra baixo pelas ruas abandonadas da cidade e às vezes eu ouvia o barulho de alarme de algum carro tocando até a bateria acabar. Acho que eu não via pessoas de verdade a mais de uma semana, para onde eles haviam ido? Porque não me levaram? Eu não sabia, só que eu tinha que encontrar esse lugar, mas para isso precisaria sair de casa... ok, vamos com calma, uma coisa por vez. 
    Sou Raquel tenho 18 anos e moro (ou me escondo...) em Rondônia, um estado perto do Amazonas que foi ou é o principal objetivo desses loucos armados. Todos imaginavam que a 3ª Guerra mundial seria por água, mas nunca ninguém teve certeza, era apenas dedução, agora olhe como estou e onde estou... podemos dizer que estou a passos pequenos da minha cova... preciso sair daqui, mas o medo não deixa, preciso ter coragem... 
    O sol já havia dado lugar para a lua, os gemidos aumentavam lá fora assim como o som de passos arrastados... os zumbis estavam saindo dos seus esconderijos. Antes de tudo isso se tornar um problema costumavam dizer que zumbis não se davam bem com qualquer tipo de luz... eu descobri com a convivência que alguns são mais corajosos que os outros e que por isso eu andava com um porrete ao meu lado... ou melhor, andava pela casa com um porrete ao meu lado... talvez eu pudesse aprender alguma coisa com esses zumbis “corajosos” e mandar esse medo por inferno e procurar um lugar mais seguro e com comida!             
   O sono estava começando a chegar, meus olhos ficavam pesados a cada segundo que passava... eu me sentia segura no meu esconderijo, o banheiro do quarto dos meus pais... aos poucos eu não conseguia mais mantê-los abertos e acabei dormindo esperando que quando acordasse todo esse sufoco fosse apenas um pesadelo...

Janela Trincada

Na minha frente uma janela com os vidros trincados é atravessada pelo ar frio e cortante da noite.
São 3:20 da madrugada. Estou em algum lugar entre o Acre e o Amazonas.
A última coisa que comi foi uma maçã quase estragada que achei no meio de corpos retalhados na floresta. Sinto minhas pernas pulsarem... O sangue ainda circula.
Acho que nunca corri tanto em minha vida. Nem nos tempos em que se podia brincar no parque ou caminhar nas avenidas das cidades... Tudo isso acabou. É o fim... Ou o que resta dele.
Estou somente com a roupa do corpo e de outros corpos que acabo por acumular em minhas rondas e fugas diurnas. Seguro em minha mão esquerda a ponta do cabo de meu machado e com a mão direita aponto meu rifle para a janela apoiado em um de meus joelhos palpitantes.
Me chamo Kovalski. Sou Segundo-Tenente da Marinha Russa. Fui enviado ao Brasil com uma única finalidade: Dominar o território que possui as últimas reservas de água potável do planeta.
Não recebo ordens do Almirante a cerca de 59 dias. Suspeito que os malditos norte-americanos tenham jogado uma de suas bombas nucleares em minha amada pátria! Temo mais por minha família... Mas a cada dia que passo nesse inferno, mais distante fico da ideia de que eles ainda estão vivos.
Sinto um cheiro de carne podre se aproximar... Seguro o machado com mais força e destravo meu rifle.
Espero que sejam poucos desta vez. Minhas balas estão acabando e o machado é pesado demais para um exausto manuseá-lo com habilidade numa hora dessas...
Estava tudo certo... Não havia nada aceso ou queimando no quarto onde eu estava. Havia somente um coração louco para não acabar na boca de um deles.
A luz do luar formava penumbras de galhos na janela trincada à minha frente.
Fiquei quieto. Tranquei a respiração... Começo a ouvir os passos arrastados e abafados pela vegetação que jazia ao solo.
Eu estava fraco, mas não morto.
Consigo ver esses passando rente ao meu cômodo... já não ouço mais os passos. Bom. Economizei munição e energia.
Tentarei descansar agora. Mas não posso dormir. Aqui não é seguro... Mas não durmo há 4 dias. NÃO! Preciso ficar acordado e ponto. Ao amanhecer eu acharei um lugar melhor pra dormir.