Surpresa na Trincheira.

Meu corpo suplicava por descanso. Mas eu devia aproveitar cada segundo de luz do dia para eu me deslocar em busca dos outros marinheiros russos.

Árvores ainda me cercavam. Era um bom sinal. Sinal de que eu certamente estava no lugar onde eu achava estar.
A luz do maldito sol estava fluindo por de entre os troncos rumo ao horizonte, me deixando sozinho e cada vez mais vulnerável.
Tratei de procurar um abrigo. Meus olhos só conseguiam enxergar troncos retorcidos e folhas mortas cobrindo o sinistro chão do que poderia ser meu último leito.
Começo a perceber que eu poderia estar perdido e sem lugar para passar a noite.
Me desespero.
Começo a pensar em tudo o que eu aprendi e tudo o que eu poderia fazer com o que estava ao meu alcance.
Resolvo enfim cavar uma pequena trincheira... Funda e larga o suficiente para mim e meus equipamentos já escassos. Na noite passada eu havia encontrado, por sorte, algumas pistolas dentro de uma ruína de um presídio. Estavam com os cartuchos cheios, mas eu não sabia se elas ainda funcionavam e nem quis testar, correndo o risco de alertar minha presença. Não paguei para ver.
Me ponho no buraco recém feito e me cubro de folhas e galhos... Não forçando o contraste com o solo a minha volta.
Descansei. Só o fato de poder parar e esticar as pernas já era a glória do meu dia, recheado de monotonia e exaustão.
Começo a rezar. Rezo para que eu não tenha que colocar minha vida nas mãos de 3 pistolas velhas. Eu paro. Respiro fundo, mas devagar. Prendo a respiração e espero. Espero os ruídos infernais e gemidos dolorosos pararem...
Mas não param.
Antes fiz uma breve eleição para nomear a pistola menos velha. Deixei ela pronta. As outras duas eu havia deixado perto de minhas mãos, semi enterradas.
Os ruídos aumentam. Ficam cada vez mais intensos e envolventes. Já não consigo distinguir a origem de cada qual. O sangue circula frio, quase parando. Como se meu corpo já tivesse desistido de presenciar a possível e quase certa morte lenta e patrocinada por aquelas bestas infernais.
Um deles chega a pisar em mim. Fiquei nervoso como nunca. Mas confiei na falta de tato deles. Esse era pesado. Geralmente eles são magros, com pouca carne e membros em decomposição. Eu não iria arriscar minha pele para ver a cara deles. Fiquei quieto até que eles se foram.
Minha noção de tempo era totalmente distorcida e eu era muito mais paciente do que antes do fim. Eu aprendi a esperar, e esperei. Creio que depois de cerca de duas horas após eles sumirem, eu esperei. Fiquei imóvel como uma pedra... Uma pedra que lutava a cada dia para se esconder e sobreviver.
Enfim resolvo sair e noto, com um súbito frio na espinha, que todas as pegadas eram de coturnos russos... Com os símbolos da marinha. Eram eles... Os malditos foram infectados. Toda minha jornada até eles foi em vão.
Não perdi a cabeça. Eu não poderia fazer isso... Não... Não posso me entregar. Não depois de tudo que passei. Não agora. Não hoje.
Apago meus rastros da noite passada e ao amanhecer continuo minha dura e dolorosa caminhada em busca de algo que não sei... Simplesmente não sei... Mas continuo minha caminhada.